quinta-feira, 18 de junho de 2009

Talvez fechar a Escola…


Espera-se que a escola eduque e a escola não o pode fazer porque não sabe e, mesmo sabendo, não tem os meios que seriam necessários. A educação é outra coisa! Fazia parte das obrigações da família, digamos assim, e de alguma forma também de uma sociedade educada que necessariamente produziria mais ou menos cidadãos educados. (José Saramago)

A vida de muitos homens e mulheres justificou-se por um só e único momento das suas vidas que lhe deu sentido e razão de ser. Outros que, de uma forma ou de outra, sofreram as consequências desse feliz momento, dessa abençoada decisão, desse golpe de asa, dessa coragem inesperada e frutífera devem àqueles os momentos históricos que fizeram evoluir o homem e o mundo.
O que queremos ver na escola são soluções, são respostas, são ecos das existências que por ali vão decorrendo, umas com sentido, outras em busca dele sem dele saberem, e ainda outras que decorrem, simplesmente, como o vento, esperando por obstáculo que as leve a pensar-se, a contornar-se, aprendendo a ver-se como quem se olha de fora e se vê a justificar, num só momento, a vida toda.
O que vemos na escola são realidades profundamente inquietantes, sobretudo porque, de tão certas, nos levantam tantas dúvidas: hoje, na sala de aula, a atenção dos alunos é distribuída, percentualmente, por uma multiplicidade de estímulos, dos quais, os que se desprendem da actividade do professor – na força da sua atitude comunicante – requereriam uma maior fatia dessa percentagem de atenção do que aquela que, efectivamente, lhe vem cabendo. Parcialmente atento, o aluno ouve o professor, reage aos estímulos comunicativos do(s) colega(s), quer através de palavras sussurradas, quer de olhares, e interage com o mundo através do telemóvel. Ao professor, resta-lhe inventar, todos os dias, a sua actividade, qual Prometeu agrilhoado, agradecendo, ainda, essa cota de atenção que os alunos lhe concedem e se traduz no silêncio, no respeito às indicações que vai dando e ao facto de, ainda, lhe pedirem licença para ir à casa de banho. Abençoados estes professores, pois podem sair em paz, no final da aula, porque os respeitaram enquanto cidadãos, mas, enquanto professores, muito pouco ou quase nada do que disserem foi ouvido e do que praticaram pouco aproveitará aos alunos.
Saiamos, agora, por breves momentos, da escola e entremos na casa de cada um: olhamos as nossas crianças/adolescentes e vemos nelas um profundo sentimento de desprezo pelos adultos/pais quando estes, assumindo a sua tarefa de educadores, ousam dizer não, ousam proibir – proibir?! – porque lhes assiste esse direito, porque têm um capital de experiência de vida adquirido que não podem sonegar aos filhos. Na verdade, esse desprezo pela autoridade que, em muitos casos, desemboca em violência familiar, é transferido e ampliado na escola.
Cabe à família, lugar primeiro da educação integral de cada criança, a responsabilidade pela epidémica falta de autoridade e de disciplina que hoje se disseminam, quase secretamente, até ao dia em que, sem que nada o faça prever, descobrimos que o nosso filho… É esta sociedade que deseja que as crianças passem tantas horas na escola, porque a família se tornou num lugar emocional sem residência fixa e com regras volúveis! Parece que o respeito pelo outro, a solidariedade, a preservação dos recursos naturais, o sentimento de pertença a uma família, a responsabilidade no estudo – que sei eu! - têm que ser apreendidos na escola, pois à família, quase nada lhe resta fazer, uma vez que também espera que seja aquela a proporcionar a educação sexual, o uso de preservativos e da pílula do dia seguinte. Supostamente, à família, para além de procriar, resta-lhe o encargo de levar os filhos à escola. O estado que os alimente e que os eduque! Assume, pois, o estado, a responsabilidade pela educação dos nossos filhos, quando lhe deveria caber, apenas, a responsabilidade de os instruir! Ponto final.
Há salas de aula onde o professor exerce a sua autoridade no limite do humanamente possível e aceitável: fazer-se ouvir, em silêncio, é um feito de Rambo; ensinar qualquer coisa é digno de notícia de abertura no jornal das oito; ter os alunos sentados é caso a registar no Guinness; haver um aluno que traga o material necessário é um achado de Indiana Jones. Nestas supostas salas de aula, os alunos falam de tudo e mais alguma coisa – menos da matéria que o professor sumariou – numa linguagem cheia de obscenidades; o material é levado, de aula para aula, pelo professor e, quando algum “trabalho” do aluno não aparece, a responsabilidade é daquele, porque não o guardou devidamente. De que pesadelo falo eu!
Ao estado, na figura dos seus dirigentes, cabe, pois, uma simples tarefa: a de justificar numa decisão toda a sua carreira política: fechar as escolas, encerrar todas as escolas. Por decreto. Às famílias cabe a tarefa de encontrar, pelos momentos em que conceberam os filhos, as razões para os educarem.
Talvez houvesse menos alunos a prepararem-se para, por um momento, passarem toda a sua vida à margem da sociedade, numa onda de marginalidade que, infelizmente, começa mais amiúde na escola.
Nota: artigo publicado no Correio da Educação, nº 346.

Nenhum comentário: