quarta-feira, 26 de março de 2008

Como as virgens se sentem escandalizadas!

“- Nunca se está bem onde se está – disse o agulheiro.” O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry

Revelou, hoje, Jorge Coelho que uma professora, sua amiga, foi alvo de agressão semelhante à da badalada Carolina Michaelis; ontem, a SIC reportava que, em Tarouca, um aluno agrediu a pontapé uma auxiliar da acção educativa; a Antena 1 tem repetido as preocupações do PGR e as contra-preocupações do Bastonário da Ordem dos Advogados; a Fenprof já propôs dez medidas, dez, para solucionar o problema que, segundo o inefável Valter Lemos, nem sequer chega a existir, porque as escolas podem contratar técnicos especializados e mediadores de conflitos em situações de violência escolar! Como as virgens se sentem escandalizadas!
Extraordinário ou como gostava de dizer um dos meus professores, piramidal!
De facto, aquilo a que assistimos neste corrupio mediático é à má consciência colectiva face ao desinteresse e desleixo, para não dizer indiferença, com o que o poder político trata, de há muitos anos a esta parte, as questões relacionadas com a família.
Basta ver e considerar o que, em termos familiares, está em causa, quando se quer prolongar o horário de funcionamento das grandes superfícies comerciais pela tarde de Domingo: menos tempo dedicado à família, menos tempo dedicado aos filhos, mais tempo em que os filhos estão entregues a si próprios…
Continuo à espera que alguma voz sensata se levante e cale estes protagonistas de ocasião, que apenas aproveitam a onda mediática, escamoteando a raiz dos problemas…
Se não, ainda alguém se lembra de pôr os professores a “substituir” os pais e mães que vão trabalhar, também, ao Domingo à tarde!...

sexta-feira, 21 de março de 2008

Num abraço...

“Um nada é quanto basta para desfazer reputações, um quase nada as faz e refaz, a questão é encontrar o caminho certo para a credulidade ou para o interesse dos que vão ser eco inocente ou cúmplice.” Memorial do Convento, José Saramago

As imagens que o acidental operador de câmara colheu e nos mostram o ocorrido numa aula do 9º ano de escolaridade, numa escola do Porto, não são nem inéditas, nem frequentes. Acontecem. Como a febre é um sintoma, assim estas imagens. Falar de sintomas, só se for para tratar a doença.
O mais grave e o mais certo é quem de direito ignore os sintomas e quem está doente continue a não os sentir. Daí que, vamos vivendo no melhor dos mundos, no melhor dos sistemas educativos (no que à disciplina diz respeito…) até que um aluno brincalhão e uma aluna mal-educada resolvem ser notícia. E as virgens sentem-se ofendidas, pois claro!
Recordo-me de um episódio que vivi, enquanto aluno: com um pequeno transístor e com um auscultador disfarçado na manga, a mão encostada ao ouvido, passei parte de uma aula a ouvir música; a minha postura compenetrada e estática denunciou-me e o professor descobriu a marosca. Nunca mais voltei a repetir a gracinha! O professor não me castigou, não gritou; o meu orgulho é que ficou ferido e foi suficiente para aprender o que já sabia, que estávamos numa aula e, portanto…
Não espero que o Governo venha legislar sobre quando, onde e em que circunstâncias o telemóvel pode ser utilizado, apesar de, muito provavelmente, não lhe faltar vontade, (parece que o novo estatuto do aluno remete para o regulamentos interno da escola a questão...) como já o demonstrou com o tabaco e como se irá ver, com os piercings. Qualquer dia legislará sobre as percentagens máximas de gordura nos salpicões, sobre a hora de entrada dos adolescentes em casa, sobre o número máximo de pessoas que se podem concentrar numa praça, etc… imaginação não lhes falta.
Que este episódio não sirva para atirar poeira para os olhos das pessoas; que vejam para além dos sintomas; e que se exija aos pais, enquanto primeiros educadores, o quanto se exige aos professores.

terça-feira, 18 de março de 2008

Acerca do ensino em Portugal (Parte II)

Contribuiu, decisivamente, para a decadência do ensino em Portugal a massificação da escola, quer com o alargamento da escolaridade obrigatória até aos 15 anos, quer também com o aumento do número de licenciados para o ensino. A escolaridade obrigatória, justificada num pretenso índice de desenvolvimento de um povo – na verdade, nenhuma teoria demonstrou que é o melhor para todas as crianças frequentar a escola até aos 15 anos – levou à criação de uma escola multi-finalística, isto é, a escola deixou de ser o local onde os alunos iam adquirir alguma competência e transformou-se num prolongamento do jardim infantil; a escola é hoje o jardim juvenil e os professores, em vez de ensinaram, passaram, em primeiro lugar, a garantir a guarda dos alunos. Por sua vez, o aumento do número de licenciados para o ensino foi acompanhado por sinais exteriores de facilitismo na sua formação (do que, aparentemente, até alguns políticos beneficiaram…), de cuja responsabilidade não podem eximir-se os estabelecimentos de ensino superior público e privado. Assistimos, então, ao ingresso na classe docente de profissionais menos bem preparados e que “foram para professores porque não sabiam fazer mais nada.” Criou-se, pois, um quadro de excesso de mão-de-obra, que, nos últimos anos, devido à diminuição das taxas de natalidade, forçosamente teria que se repercutir na classe docente. Pode, neste momento, a principal entidade empregadora – o estado – dar-se ao luxo de fazer aos professores o que muito bem entender; prepotentemente.
No quadro do desenvolvimento socio-económico do país, em consequência da entrada na então CEE, criou-se uma mentalidade de falta de exigência, de falta de rigor, de falta de disciplina, de falta de capacidade empreendedora, que as boas e poucas excepções que vingaram nalguns sectores económicos, tornam ainda mais relevantes como foram “desaproveitados” os milhões que vieram de Bruxelas. No entanto, sobretudo nos últimos anos, generalizou-se a facilidade de acesso ao crédito e tornámo-nos num país que vive acima das suas possibilidades. O que tem isto a ver com o ensino? Tem tudo. Porque a escola não formou cidadãos empreendedores, socialmente comprometidos, e tecnicamente capazes. De tal forma que, de há uns anos a esta parte, se questiona mesmo a utilidade e a qualidade da escola em termos técnicos e científicos: os alunos chegam impreparados às Universidades e, quando entram no mercado de trabalho, o que aprenderam na escola de pouco ou nada lhes serve. Deve-se isto ao facto de os alunos verem a escola como um local onde passam o seu tempo; os encarregados de educação confiam à escola a guarda dos seus filhos; os professores são avassalados em tarefas burocráticas e a entreter os meninos. A superficialidade dos conhecimentos adquiridos é evidente; o facilitismo é imposto aos professores através de sucessivas reformas; o sucesso educativo é criado a qualquer custo.
À escola têm sido atribuídas responsabilidades que não lhe são próprias, desvirtuando-se a sua função de local de ensino e aprendizagem. A escola é, hoje, tudo… menos escola, lugar de ensino e de aprendizagem! Com a conivência dos poderes instituídos, pelo menos aparentemente, a família tem atirado para a escola com responsabilidades que à família pertencem. A família, sobretudo, tem-se demitido do seu papel de exigir aos seus filhos que estudem, que aproveitem o tempo da escola para aprender, que saibam assumir regras de comportamento; ora, dela se espera que, enfim, pelo menos, que “mande” nos seus filhos! Alguém tem de dizer aos meninos que aprender custa! Que aprender exige esforço, dedicação, disciplina! Que a brincar, ao contrário do que muitos andaram para aí a apregoar, não se aprende nada! Mas porque ninguém diz isto às famílias?! O que pode esperar a escola de famílias que são incapazes de impor regras básicas de comportamento social? O que pode esperar a escola de famílias que são incapazes de assegurar uma assiduidade responsável dos seus filhos? O que pode esperar a escola de famílias que privilegiam a diversão em detrimento das tarefas escolares? O Estado, tão zeloso em questões como as do consumo de tabaco e álcool, e, pelos vistos, de piercings… é incapaz de criar políticas sociais e fiscais que obriguem as famílias a assumir as suas responsabilidades no sucesso educativo dos seus filhos.
A preocupação pelo sucesso educativo dos nossos alunos tem sido implementada pela via incorrecta: através da burocratização do processo avaliativo que pretende “vencer” os professores pelo cansaço. Pelo contrário, o fomento do sucesso educativo passa por direccionar a intervenção governativa para as famílias. Todos sabem que o sucesso educativo sustentado se deve, na sua maior percentagem, ao papel das famílias e não ao papel do professor. Inverter os papéis foi o que se fez, de há trinta anos a esta parte, com as consequências que todos conhecemos. Aos professores cabe ensinar; aos alunos aprender; às famílias cabe motivar, acompanhar, disciplinar, impor regras; à escola criar o ambiente humano e material propício ao normal desenrolar do processo de ensino e de aprendizagem… e definitivamente que se imponha o saber como o centro do processo educativo. Deixemo-nos de tergiversações perniciosas: a escola não existe nem por causa dos professores, nem por causa dos alunos; existe por causa do saber e é à volta dele que professores, alunos, famílias e escola têm de se organizar. Que nenhuma das parte alije as suas responsabilidades.
A instabilidade que hoje se vive nas escolas é um contínuo de há muitos anos a esta parte; momentos de acalmia, desde que no século XIX foi criada a escola pública, têm sido momentos de excepção. Recorrentemente se clama sobre a escola, recorrentemente se reforma; a cada passo lamentamos as reformas que estão em curso e clamamos por outras que não se fazem. Assistimos a uma “futebolização” do ensino em que todos os treinadores de bancada se julgam capazes de avaliar o trabalho das escolas; em que todos se sentem capazes de julgar o trabalho dos professores - basta ler a imprensa escrita e ficamos apavorados como tantos sabem tão pouco de educação! Aprender, ensinar, investigar, educar, mesmo em tempos de mudança, requerem alguma estabilidade, pelo menos durante o decurso de cada ano lectivo. Precisamos, porém, de mais… Por isso, a política educativa que tem vindo a ser implementada pelo governo socialista, porque tem uma maioria parlamentar, deveria ter sabido implicar todos os agentes educativos, através um “pacto” a longo prazo, que salvaguardasse uma reforma global, sustentada e coesa. Ora nada disto foi feito, como todos nós sabemos; ao contrário do que o actual governo quer fazer crer, só estamos a perder tempo e energia. Porque o atraso relativamente à média dos países da EU é grande, isso já nos deveria ter levado a passar para além de orgulhos e dividendos político-partidários.
Por fim e porque já vai longa esta reflexão, convido o leitor a comparar, se lhe for possível, os actuais CEF, Cursos Profissionais e Novas Oportunidades com as Escolas Industriais e Comerciais que os pais da nação se apressaram a enterrar.
E depois a culpa é dos professores!

domingo, 16 de março de 2008

Acerca do ensino em Portugal (Parte I)



“Nos dois últimos séculos, não produziu a península um único homem superior, que se possa pôr ao lado dos grandes criadores da ciência moderna(…). Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, Antero de Quental

Gostaria de ter intitulado este texto com parte do título de onde retiro a epígrafe. Por respeito ao seu autor, não o faço. Proponho, porém, levar-me a reflectir sobre algumas das causas que poderão estar na origem da situação actual do sistema de ensino em Portugal.
Não podemos deixar de olhar, em primeiro lugar, para nós próprios, como parte também e infelizmente do problema. A culpa não morre pois solteira, mas tem amantes! Ora, o primeiro factor de decadência da escola portuguesa é a inexistência, de há muito anos a esta parte, de uma cultura de exigência, de disciplina e de auto-avaliação: da tutela até aos alunos, passando pelos docentes e não-docentes: as sucessivas tutelas nunca apresentaram a avaliação das suas políticas, refugiando-se no inócuo e inconsequente, em termos de ensino, “o eleitorado é que é o grande avaliador…”. Dessa falta de cultura auto-avaliativa, por parte dos sucessivos governos e equipas ministeriais, nasceram as várias reformas que foram sendo implementadas, sem saber por que motivo as anteriores falharam e sem saber para onde se quer caminhar e mesmo até onde. Esse espírito vem de cima para baixo… e até os alunos têm dificuldade em assumir e ser consequentes com a sua auto-avaliação.
Isto remete-nos para outra das causas da actual situação e que o actual governo assume desaforadamente: a sobrevalorização das estatísticas em detrimento de políticas de educação sustentadas, como por exemplo, as novas oportunidades, o programa e-escolas, os cef, os cursos profissionais, os centros de validação de competências que produzem o sucesso estatístico, todavia desacreditam a escola, enganam o mercado de trabalho e, por último, mas não menos importante, criam falsas expectativas nos alunos que, quando forem confrontados com o mercado de trabalho, hão-de virar-se para a escola e dizer “mas lá não me ensinaram nada disso…” ; porque nem a eles, nem aos professores se lhes exigiu que aprendessem ou ensinassem qualquer coisa que fosse.
E porque é que os professores não ensinam? Porque não sabem o que hão-de ensinar ou porque quem deveria ser ensinado não quer aprender? Ninguém, de boa fé, sustentará que não é desejo primeiro de todos os professores que os seus alunos aprendam. Portanto, se aqueles não querem aprender, é também (não só…) porque aos professores vem faltando a autoridade, ou porque o sistema educativo não lha dá, formalmente, ou porque aqueles não a têm, simplesmente. Por tudo isto, se tem vindo a assistir a uma crescente desvalorização da autoridade do professor e da própria escola, como locais de saber e de aprendizagem.
Acresce ainda referir que, em educação, não há tempo para implementar qualquer reforma. Por muitas e variadas razões, mudanças, como, por exemplo, a tentativa de implementação da TLEBS, a avaliação dos alunos no ensino básico e o regime disciplinar e de assiduidade dos alunos sofrem alterações impensáveis, em momentos desadequados e que, parecem, apenas, manifestar um voluntarismo inócuo, pedagogicamente irresponsável e de resultados sociais imprevisíveis.
Recordamos certamente o boom do ensino superior público e privado… mas ninguém conhecia as taxas de natalidade? Ninguém sabia, por exemplo, que a maior parte dos alunos dos cursos de letras se estava a preparar para o desemprego? Ninguém sabia?! Ninguém os avisou?!
Uma outra causa dos maus resultados do sistema de ensino em Portugal é que a modernização de infra-estruturas que o país viveu nas últimas décadas não atingiu todas as escolas. Hoje, há ainda, em muitas delas, salas de aula precárias, para não falar da falta de equipamento tecnológico. E será pertinente considerar, cada vez mais, a escola como o local de trabalho do aluno e… do professor, a tempo inteiro! Há alguma escola no país que suporte a presença, em tempo de aulas, das 8 horas às 17.30 (pelo menos) de todos os seus professores e lhes dê condições de trabalho? Como funcionaria o sistema de ensino em Portugal, se tivesse de garantir transporte aos seus funcionários? (em muitas empresas privadas isso é normal…); e se tivesse de disponibilizar mesa de trabalho individual e computador, no mínimo, a cada professor?! (nas empresas, o equipamento a utilizar não consta que seja propriedade do funcionário); para não falar nas horas de trabalho roubadas à família e ao lazer, que todo o cidadão merece, e que são despendidas a favor da escola. Por mim, venderei todo o equipamento de escritório que tenho em casa, excepto os livros, no dia em que a escola me possibilitar condições de trabalho. Por mim, ficarei eternamente grato ao governo que me possibilitar um horário semanal de trabalho cumprido integralmente na escola, sem necessidade de carregar qualquer tipo de trabalho para casa, pela noite dentro, pelo fim-de-semana fora… Todavia, e na perspectiva dos alunos, convém referir que a muitos faltam bibliotecas e centros de recursos devidamente equipados, faltam salas onde não se ouça a “música” que vem da rua…
Porém, temos estádios de futebol, novos, e às moscas; auto-estradas a cada esquina; novas estações do metro, para inglês ver, e já se avista Alcochete e o TGV… A opção irlandesa não foi essa.
Enfim, cada povo tem o governo que merece.

sexta-feira, 14 de março de 2008

A Estratégia da Educação

“A mamã prometeu-lhe que, se dissesse os versinhos, dormia essa noite com ela…” Os Maias, Eça de Queirós

A estratégia governamental para a Educação, de há três anos a esta parte, tem vindo a tentar implementar um novo interlocutor nas reformas educativas: os Conselhos Executivos, de onde fez emergir o novel representante da classe docente, segundo a tutela, a saber, o Conselho de Escolas.
Aos Conselhos Executivos, em reuniões efectuadas por todo o país, de norte a sul, o Ministério da Educação impôs uma série de medidas, mais ou menos legais, mas sobretudo apressadas, que estes se emularam em implementar nas suas escolas. Por exemplo, as aulas de substituição, que não foram consideradas serviço lectivo extraordinário… Os Conselhos Executivos, na sua grande maioria, não se preocuparam em saber da legalidade ou não dessas medidas; não ouviram os professores que os elegeram para os cargos que ocupam e passaram por cima dos Conselhos Pedagógicos. Aliás, os Conselhos Executivos têm vindo a fazer com os Conselhos Pedagógicos aquilo que a Ministra faz com eles: apresenta as medidas a implementar, não ouve nem aceita quaisquer propostas de alteração. Consagra-se, assim, a prepotência da maioria governativa, ao mesmo tempo que se vai desenrolando o “estágio” dos futuros Directores Executivos.
Ao criar este novo interlocutor das políticas educativas, o Ministério da Educação pretendeu esvaziar a representatividade dos Sindicatos da classe docente, que de serem tantos, tanta ineficácia têm manifestado de há trinta anos a esta parte… Aos Sindicatos cabe também a responsabilidade de não terem sabido antecipar os tempos, de não terem sabido ler a desolação dos resultados obtidos pelo sistema educativo e não terem sabido propor medidas ou aproveitar os mecanismos existentes no sentido de uma valorização profissional e social da classe docente. O fim do exame de acesso ao oitavo escalão, em tempos guterrianos, foi um erro, do qual são cúmplices alguns sindicatos e o partido no governo. A acção desenvolvida pela grande maioria dos centros de formação de professores foi um sucedâneo de tiros nos pés… A marcação de greves em vésperas de fim-de-semana foi um erro terrível que só os indefectíveis dos sindicatos não viam… Ora, aproveitando esta imagem desgastada dos professores e dos sindicatos, a tutela tenta excluí-los como parceiros de negociação das políticas educativas. Foi-lhe por isso fácil, perdoado, e, até por alguns sectores sociais, aplaudida a ideia de que “perdi os professores, mas ganhei os pais.” A diabolização da classe docente serviu à estratégia da tutela e, pretensamente, correspondia a uma leitura objectiva de certos sectores da opinião pública. Nesse clima nasceu o novo Estatuto da Carreira Docente…
A estratégia governamental passava também por poupar tempo na implementação das medidas educativas, conhecida, como é, a dificuldade de as implementar; até porque elas se sucedem numa catadupa que se atropela a si própria! (Qualquer Ministério da Educação deveria “legislar” para si próprio o seguinte: todos os diplomas aprovados só entrarão em vigor no próximo ano lectivo. Deixavam de perturbar as escolas, de mudar as regras do jogo a meio; e o que se perdia em tempo, ganhava-se em eficácia e em eficiência, no ano lectivo seguinte.) Mesmo se isso veio a desembocar num conjunto de propostas autistas e, por conseguinte, deficientes e difíceis de compreender (Já agora, quem escreve as leis? porque razão se preocupam em complicar?!), que obrigam as escolas a sucessivos pedidos de esclarecimento, tornando-se grave e preocupante a disparidade de interpretações de despachos e decretos de uma escola para outra. É o caso, por exemplo, do novo estatuto do aluno que levou imediatamente algumas escolas à sua implementação, com efeitos retroactivos e consequente aplicação de exames…, enquanto outras aguardavam! Até que se suspendeu, para entrar em vigor, apenas, no próximo ano lectivo! É preciso tanta precipitação para se ter algum bom senso? Não esqueçamos também as medidas tomadas ao nível dos concursos docentes que geraram injustiças e “ultrapassagens” indevidas e devidas ao atabalhoamento com que tudo foi pensado e feito.
A estratégia governamental para a Educação tem ainda uma cereja no bolo: o novo modelo de gestão das escolas. Ele faz-me lembrar o prémio prometido aos meninos para satisfazerem o pedido dos adultos, “a mamã prometeu-lhe que, se dissesse os versinhos, dormia essa noite com ela...”, como dizia o Eça.

Nota: A opinião do autor vertida neste texto pretende ser uma leitura política da situação do ensino em Portugal. Qualquer leitura que pretenda ligar este texto, única e exclusivamente, a situações particulares de uma escola é infundada e indevida.