Contribuiu, decisivamente, para a decadência do ensino em Portugal a massificação da escola, quer com o alargamento da escolaridade obrigatória até aos 15 anos, quer também com o aumento do número de licenciados para o ensino. A escolaridade obrigatória, justificada num pretenso índice de desenvolvimento de um povo – na verdade, nenhuma teoria demonstrou que é o melhor para todas as crianças frequentar a escola até aos 15 anos – levou à criação de uma escola multi-finalística, isto é, a escola deixou de ser o local onde os alunos iam adquirir alguma competência e transformou-se num prolongamento do jardim infantil; a escola é hoje o jardim juvenil e os professores, em vez de ensinaram, passaram, em primeiro lugar, a garantir a guarda dos alunos. Por sua vez, o aumento do número de licenciados para o ensino foi acompanhado por sinais exteriores de facilitismo na sua formação (do que, aparentemente, até alguns políticos beneficiaram…), de cuja responsabilidade não podem eximir-se os estabelecimentos de ensino superior público e privado. Assistimos, então, ao ingresso na classe docente de profissionais menos bem preparados e que “foram para professores porque não sabiam fazer mais nada.” Criou-se, pois, um quadro de excesso de mão-de-obra, que, nos últimos anos, devido à diminuição das taxas de natalidade, forçosamente teria que se repercutir na classe docente. Pode, neste momento, a principal entidade empregadora – o estado – dar-se ao luxo de fazer aos professores o que muito bem entender; prepotentemente.
No quadro do desenvolvimento socio-económico do país, em consequência da entrada na então CEE, criou-se uma mentalidade de falta de exigência, de falta de rigor, de falta de disciplina, de falta de capacidade empreendedora, que as boas e poucas excepções que vingaram nalguns sectores económicos, tornam ainda mais relevantes como foram “desaproveitados” os milhões que vieram de Bruxelas. No entanto, sobretudo nos últimos anos, generalizou-se a facilidade de acesso ao crédito e tornámo-nos num país que vive acima das suas possibilidades. O que tem isto a ver com o ensino? Tem tudo. Porque a escola não formou cidadãos empreendedores, socialmente comprometidos, e tecnicamente capazes. De tal forma que, de há uns anos a esta parte, se questiona mesmo a utilidade e a qualidade da escola em termos técnicos e científicos: os alunos chegam impreparados às Universidades e, quando entram no mercado de trabalho, o que aprenderam na escola de pouco ou nada lhes serve. Deve-se isto ao facto de os alunos verem a escola como um local onde passam o seu tempo; os encarregados de educação confiam à escola a guarda dos seus filhos; os professores são avassalados em tarefas burocráticas e a entreter os meninos. A superficialidade dos conhecimentos adquiridos é evidente; o facilitismo é imposto aos professores através de sucessivas reformas; o sucesso educativo é criado a qualquer custo.
À escola têm sido atribuídas responsabilidades que não lhe são próprias, desvirtuando-se a sua função de local de ensino e aprendizagem. A escola é, hoje, tudo… menos escola, lugar de ensino e de aprendizagem! Com a conivência dos poderes instituídos, pelo menos aparentemente, a família tem atirado para a escola com responsabilidades que à família pertencem. A família, sobretudo, tem-se demitido do seu papel de exigir aos seus filhos que estudem, que aproveitem o tempo da escola para aprender, que saibam assumir regras de comportamento; ora, dela se espera que, enfim, pelo menos, que “mande” nos seus filhos! Alguém tem de dizer aos meninos que aprender custa! Que aprender exige esforço, dedicação, disciplina! Que a brincar, ao contrário do que muitos andaram para aí a apregoar, não se aprende nada! Mas porque ninguém diz isto às famílias?! O que pode esperar a escola de famílias que são incapazes de impor regras básicas de comportamento social? O que pode esperar a escola de famílias que são incapazes de assegurar uma assiduidade responsável dos seus filhos? O que pode esperar a escola de famílias que privilegiam a diversão em detrimento das tarefas escolares? O Estado, tão zeloso em questões como as do consumo de tabaco e álcool, e, pelos vistos, de piercings… é incapaz de criar políticas sociais e fiscais que obriguem as famílias a assumir as suas responsabilidades no sucesso educativo dos seus filhos.
A preocupação pelo sucesso educativo dos nossos alunos tem sido implementada pela via incorrecta: através da burocratização do processo avaliativo que pretende “vencer” os professores pelo cansaço. Pelo contrário, o fomento do sucesso educativo passa por direccionar a intervenção governativa para as famílias. Todos sabem que o sucesso educativo sustentado se deve, na sua maior percentagem, ao papel das famílias e não ao papel do professor. Inverter os papéis foi o que se fez, de há trinta anos a esta parte, com as consequências que todos conhecemos. Aos professores cabe ensinar; aos alunos aprender; às famílias cabe motivar, acompanhar, disciplinar, impor regras; à escola criar o ambiente humano e material propício ao normal desenrolar do processo de ensino e de aprendizagem… e definitivamente que se imponha o saber como o centro do processo educativo. Deixemo-nos de tergiversações perniciosas: a escola não existe nem por causa dos professores, nem por causa dos alunos; existe por causa do saber e é à volta dele que professores, alunos, famílias e escola têm de se organizar. Que nenhuma das parte alije as suas responsabilidades.
A instabilidade que hoje se vive nas escolas é um contínuo de há muitos anos a esta parte; momentos de acalmia, desde que no século XIX foi criada a escola pública, têm sido momentos de excepção. Recorrentemente se clama sobre a escola, recorrentemente se reforma; a cada passo lamentamos as reformas que estão em curso e clamamos por outras que não se fazem. Assistimos a uma “futebolização” do ensino em que todos os treinadores de bancada se julgam capazes de avaliar o trabalho das escolas; em que todos se sentem capazes de julgar o trabalho dos professores - basta ler a imprensa escrita e ficamos apavorados como tantos sabem tão pouco de educação! Aprender, ensinar, investigar, educar, mesmo em tempos de mudança, requerem alguma estabilidade, pelo menos durante o decurso de cada ano lectivo. Precisamos, porém, de mais… Por isso, a política educativa que tem vindo a ser implementada pelo governo socialista, porque tem uma maioria parlamentar, deveria ter sabido implicar todos os agentes educativos, através um “pacto” a longo prazo, que salvaguardasse uma reforma global, sustentada e coesa. Ora nada disto foi feito, como todos nós sabemos; ao contrário do que o actual governo quer fazer crer, só estamos a perder tempo e energia. Porque o atraso relativamente à média dos países da EU é grande, isso já nos deveria ter levado a passar para além de orgulhos e dividendos político-partidários.
Por fim e porque já vai longa esta reflexão, convido o leitor a comparar, se lhe for possível, os actuais CEF, Cursos Profissionais e Novas Oportunidades com as Escolas Industriais e Comerciais que os pais da nação se apressaram a enterrar.
E depois a culpa é dos professores!