“Nos dois últimos séculos, não produziu a península um único homem superior, que se possa pôr ao lado dos grandes criadores da ciência moderna(…). Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, Antero de Quental
Gostaria de ter intitulado este texto com parte do título de onde retiro a epígrafe. Por respeito ao seu autor, não o faço. Proponho, porém, levar-me a reflectir sobre algumas das causas que poderão estar na origem da situação actual do sistema de ensino em Portugal.
Não podemos deixar de olhar, em primeiro lugar, para nós próprios, como parte também e infelizmente do problema. A culpa não morre pois solteira, mas tem amantes! Ora, o primeiro factor de decadência da escola portuguesa é a inexistência, de há muito anos a esta parte, de uma cultura de exigência, de disciplina e de auto-avaliação: da tutela até aos alunos, passando pelos docentes e não-docentes: as sucessivas tutelas nunca apresentaram a avaliação das suas políticas, refugiando-se no inócuo e inconsequente, em termos de ensino, “o eleitorado é que é o grande avaliador…”. Dessa falta de cultura auto-avaliativa, por parte dos sucessivos governos e equipas ministeriais, nasceram as várias reformas que foram sendo implementadas, sem saber por que motivo as anteriores falharam e sem saber para onde se quer caminhar e mesmo até onde. Esse espírito vem de cima para baixo… e até os alunos têm dificuldade em assumir e ser consequentes com a sua auto-avaliação.
Isto remete-nos para outra das causas da actual situação e que o actual governo assume desaforadamente: a sobrevalorização das estatísticas em detrimento de políticas de educação sustentadas, como por exemplo, as novas oportunidades, o programa e-escolas, os cef, os cursos profissionais, os centros de validação de competências que produzem o sucesso estatístico, todavia desacreditam a escola, enganam o mercado de trabalho e, por último, mas não menos importante, criam falsas expectativas nos alunos que, quando forem confrontados com o mercado de trabalho, hão-de virar-se para a escola e dizer “mas lá não me ensinaram nada disso…” ; porque nem a eles, nem aos professores se lhes exigiu que aprendessem ou ensinassem qualquer coisa que fosse.
E porque é que os professores não ensinam? Porque não sabem o que hão-de ensinar ou porque quem deveria ser ensinado não quer aprender? Ninguém, de boa fé, sustentará que não é desejo primeiro de todos os professores que os seus alunos aprendam. Portanto, se aqueles não querem aprender, é também (não só…) porque aos professores vem faltando a autoridade, ou porque o sistema educativo não lha dá, formalmente, ou porque aqueles não a têm, simplesmente. Por tudo isto, se tem vindo a assistir a uma crescente desvalorização da autoridade do professor e da própria escola, como locais de saber e de aprendizagem.
Acresce ainda referir que, em educação, não há tempo para implementar qualquer reforma. Por muitas e variadas razões, mudanças, como, por exemplo, a tentativa de implementação da TLEBS, a avaliação dos alunos no ensino básico e o regime disciplinar e de assiduidade dos alunos sofrem alterações impensáveis, em momentos desadequados e que, parecem, apenas, manifestar um voluntarismo inócuo, pedagogicamente irresponsável e de resultados sociais imprevisíveis.
Recordamos certamente o boom do ensino superior público e privado… mas ninguém conhecia as taxas de natalidade? Ninguém sabia, por exemplo, que a maior parte dos alunos dos cursos de letras se estava a preparar para o desemprego? Ninguém sabia?! Ninguém os avisou?!
Uma outra causa dos maus resultados do sistema de ensino em Portugal é que a modernização de infra-estruturas que o país viveu nas últimas décadas não atingiu todas as escolas. Hoje, há ainda, em muitas delas, salas de aula precárias, para não falar da falta de equipamento tecnológico. E será pertinente considerar, cada vez mais, a escola como o local de trabalho do aluno e… do professor, a tempo inteiro! Há alguma escola no país que suporte a presença, em tempo de aulas, das 8 horas às 17.30 (pelo menos) de todos os seus professores e lhes dê condições de trabalho? Como funcionaria o sistema de ensino em Portugal, se tivesse de garantir transporte aos seus funcionários? (em muitas empresas privadas isso é normal…); e se tivesse de disponibilizar mesa de trabalho individual e computador, no mínimo, a cada professor?! (nas empresas, o equipamento a utilizar não consta que seja propriedade do funcionário); para não falar nas horas de trabalho roubadas à família e ao lazer, que todo o cidadão merece, e que são despendidas a favor da escola. Por mim, venderei todo o equipamento de escritório que tenho em casa, excepto os livros, no dia em que a escola me possibilitar condições de trabalho. Por mim, ficarei eternamente grato ao governo que me possibilitar um horário semanal de trabalho cumprido integralmente na escola, sem necessidade de carregar qualquer tipo de trabalho para casa, pela noite dentro, pelo fim-de-semana fora… Todavia, e na perspectiva dos alunos, convém referir que a muitos faltam bibliotecas e centros de recursos devidamente equipados, faltam salas onde não se ouça a “música” que vem da rua…
Porém, temos estádios de futebol, novos, e às moscas; auto-estradas a cada esquina; novas estações do metro, para inglês ver, e já se avista Alcochete e o TGV… A opção irlandesa não foi essa.
Enfim, cada povo tem o governo que merece.
2 comentários:
Tens razão no que escreves.
Os professores são (também) parte das causas da decadência do ensino em Portugal, seja por questões ligadas à nossa inércia e imobilismo, seja por um carácter de reduzida auto-exigência que, com o passar dos anos, tem vindo a vingar nas nossas escolas. No entanto, o país tem apenas os professores que merece. Uns bons; outros maus...
E, se há alguém que muito contribuiu para o actual estado de coisas, esse alguém é, sem dúvida, o conjunto de sucessivos governantes que esiveram à frente do ME nas últimas duas décadas...
Finalmente, começam-se a constatar os efeitos nefastos da desmultiplicação de experiências reformistas levadas a efeito pelos mais de vinte Ministros da Educação que o país eve desde 1974.
Há que dar a conhecer (para os mais distraídos, que não serão poucos) o actual estado do ensino em Portugal: facilitismo, decadência, displicência.
Continua assim, João... A escrever sobre a realidade escolar portuguesa. Terás aqui um leitor assíduo.
Que hei-de dizer-te, caríssimo João? Apenas que visito este espaço e saboreio as tuas palavras carregadas de razão. Estou de acordo contigo em tudo o que escreves e mais ainda na política de desinvestimento dos sucessivos governos nas escolas, apostados em obras grandiosas para estrangeiro ver. A sociedade mudou, os interesses e necessidades dos nossos jovens alteraram-se e a escola, em muitos aspectos continua obsoleta.
Continua João.
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